As alternativas para a reciclagem de pneus velhos

 

Fábio Gallacci / Agência Anhangüera


Em tempos de combate total ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, eles são considerados inimigos públicos número um por acumularem água parada com facilidade. Mas bem antes disso, os pneus velhos abandonados em qualquer canto já eram um problema de difícil solução para todas as cidades brasileiras. Em Campinas, onde 1,5 mil deles são retirados de lixões, terrenos baldios e córregos todos os meses, outro grande desafio é conter a sua queima criminosa, que acontece principalmente na periferia. Em chamas, o material libera dióxido de enxofre, um perigoso poluente que ameaça o Meio Ambiente e a saúde pública.

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Na tentativa de minimizar o problema, a Prefeitura encarrega os funcionários de suas 14 Administrações Regionais (ARs) e mais as quatro subprefeituras (dos distritos de Sousas, Joaquim Egídio, Barão Geraldo e Nova Aparecida) a coletarem todos os pneus que forem encontrados pela frente. Nenhum deles é depositado no Aterro Sanitário Delta 1. A montanha de borracha deixa de ser problema para se transformar em solução assim que chega ao Centro de Picotagem do Grupo Cimentos Portugueses, em Jundiaí. A empresa faz parte da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip).

No local, os pneus que antes serviam apenas como criadouro para mosquitos são retalhados, incinerados nas condições de segurança adequadas e transformados em combustível para alimentar a fornalha que produz cimento na empresa. Por hora, passam pelo sistema dois mil pneus ou o equivalente a dez toneladas de material. "As cinzas que sobram da incineração ainda são aproveitadas na massa que compõe o cimento", lembra José Carlos Arnaldi, assistente da Secretaria Executiva da Anip.

A Prefeitura de Campinas não recebe um centavo pela entrega dos pneus. O que existe é uma troca de favores entre o Poder Público, que se livra de toneladas de lixo que ocupa espaço e polui ferozmente a cidade, e a empresa que recebe grandes quantidades de matéria-prima para a sua produção. "Algumas empresas ainda cobram para receber os pneus", afirma Waldir Bizzo, diretor do Departamento de Limpeza Urbana (DLU).

Além de combustível, a borracha dos pneus ainda pode ser reutilizada em tapetes de automóveis e solados de sapatos. Como se não bastasse, o material de grande resistência também é aproveitado para reforçar muros de arrimo, encanamentos de córregos ou na drenagem de gases em aterros sanitários. Em Piracicaba, os pneus servem para conter a erosão do solo. Já em Limeira, o mesmo produto facilita a drenagem de líquidos percolados de aterros.

"Eles são muito úteis, mesmo depois de gastos. Recortando o talão, a parte mais resistente do pneu, podemos fazer até tubulações para água pluvial. Isso acaba trazendo economia para qualquer Prefeitura", confirma Marcelo Alvarenga, gerente da Mazola Comércio, Logística e Reciclagem de Valinhos.

Coleta

A rede Dpaschoal, em parceria com a fabricante Goodyear, já mantém um processo de coleta de pneus com foco na destinação correta do produto usado e deixado nas mais de 180 lojas espalhadas pelo País. A empresa Midas Elastômeros do Brasil, sediada em Itupeva, recicla anualmente seis milhões de pneus. Com esta iniciativa, o rendimento previsto do grupo para este ano é de R$ 100 milhões.

Estradas

O mesmo pneu velho que incomoda e ameaça a saúde da população nos aterros sanitários e lixões também pode garantir uma viagem tranqüila pelas estradas do País. Não rodando junto com os veículos, mas fazendo parte da própria via em que eles transitam. Um trecho de dois quilômetros da Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), que liga o Sul ao Nordeste do Brasil, está utilizando o inédito "asfalto ecológico" e chegando a ótimos resultados. No trecho da estrada que passa pela cidade gaúcha de Guaíba - entre os quilômetros 318 e 320 - cerca de 700 pneus foram derretidos e unidos à massa asfáltica para reforçar toda a estrutura e, de quebra, acabar com os insistentes buracos que colocam em risco quem passava pelo local. A iniciativa partiu dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Outro trabalho interessante é desenvolvido pela concessionária Ecovia Caminho do Mar, que administra a BR-277, que liga Curitiba (PR) a Paranaguá (PR). Do quilômetro 51 ao 56, toda a estrada será coberta pelo asfalto reforçado com pedaços de pneus.

Além de estradas mais qualificadas para escoar a produção nacional, a matéria-prima retirada dos pneus ainda podem cumprir um imenso papel social. Em bairros carentes, que lutam anos a fio para contar com o mínimo de asfalto em suas ruas, a alternativa ecológica também se torna viável. Na cidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, oito ruas do bairro Nosso Senhor do Bonfim já contam com a novidade.

O único ponto negativo sobre o assunto é o encarecimento dos custos, já que a utilização do asfalto ecológico é 20% mais cara do que o método convencional. Apesar disso, o ganho ambiental, de saúde e até mesmo de imagem torna a idéia tentadora para qualquer empresa interessada em ajudar o País.

Responsabilidade

Em julho de 1999, a Resolução nº 258 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabeleceu que as empresas, fabricantes e importadores de pneus sejam obrigados a comprovar anualmente, junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), a destinação final ambientalmente adequada das quantidades dos chamados pneus "inservíveis" produzidos ou comercializados.

De acordo com a determinação federal, as fábricas e distribuidoras de pneus tiveram o compromisso de reciclar 25% de sua produção no ano passado. Para este ano, o volume deve ser de 50%. A missão ainda é atingir 100% em 2004. No ano de 2005, a reciclagem deverá superar a produção, com cinco pneus reciclados para cada quatro fabricados.

O Conama ainda proibiu o armazenamento de pneus velhos em grandes espaços, a céu aberto. Mesmo assim, segundo levantamentos técnicos, atualmente existem cerca de 100 milhões de pneus abandonados em aterros, lixões, córregos, lagoas e rios do Brasil. A triste realidade serve apenas para oferecer mais riscos ao Meio Ambiente e à saúde pública.

O problema tende a ser ainda pior já que, no mês passado, o governo federal isentou de qualquer multa as importações de pneus "meia-vida" vindos dos países do Mercosul, principalmente da Argentina. Após a decisão, os EUA e a União Européia se mostraram interessados em exportar este material para o mercado brasileiro. Com a medida, reprovada por integrantes do próprio PT, o Brasil passará a receber mais de 40 milhões de pneus recauchutados por ano, transformando-se em um lixão mundial.