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6.6. A reciclagem do lixo urbano
Apesar do significado abrangente do termo, a reciclagem vem sendo atualmente
considerada, acima de tudo, um método de recuperação
energética.
Dentro deste conceito, pode-se classificar as diversas formas de reciclagem
de acordo com a maior ou menor recuperação de energia
de cada processo. Assim:
Máximo índice de recuperação - Aí
se enquadra a seleção de materiais que poderão
ser novamente utilizados, sem qualquer beneficiamento industrial, a
não ser lavagem e eventual esterilização.
Exemplo: garrafas inteiras de refrigerantes ou de cerveja.
Médio índice de recuperação - Neste
caso, há necessidade de se proceder algum beneficiamento industrial
ao produto recuperado a fim de transformá-lo novamente em material
reutilizável.
Exemplo: cacos de vidro, metais e embalagens de plástico.
Recuperação biológica - Trata-se de uma
particularização do caso anterior, isto é, médio
índice de recuperação, só que referente
às frações orgânicas do lixo. É o
caso da produção de adubo orgânico e da obtenção
de combustível gasoso (metano).
Baixo índice de recuperação - Neste caso
esta inserido o aproveitamento do poder calorífico dos materiais
combustíveis presentes no lixo, mediante sua incineração.
Por exemplo, quando se queima um saco plástico, a energia liberada
é menor que a utilizada no seu processo de fabricação,
desde a matéria-prima (petróleo) até o produto
acabado (saco plástico).
No planejamento de um sistema de reciclagem, deve-se ter sempre como
objetivo principal a obtenção do maior balanço
energético possível.
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Compostagem
A compostagem é um processo de transformação da
matéria orgânica do lixo em um composto (adubo) orgânico.
Isso acontece pela ação de microorganismos existentes
no próprio lixo, que vão decompondo a matéria orgânica
mais complexa em produtos finais mais simples.
Basicamente existem dois tipos de compostagem: um que se dá com
a presença do oxigênio do ar (via aeróbia), e outro
que ocorre sem este oxigênio (via anaeróbia).

Fundamentos do processo de compostagem
As substâncias resultantes da decomposição por via
aeróbia são os gás carbônico (CO2), a água
(H20) e produtos finais oxigenados (nitratos, sulfatos, etc.), havendo
uma grande liberação de energia sob a forma de calor durante
o processo.
Na compostagem anaeróbia, além de gás carbônico
e água são produzidos o metano (CH4), a amônia (NH3)
e produtos finais parcialmente reduzidos (aldeídos, álcoois,
etc.), ocorrendo uma liberação de energia durante a decomposição
em intensidade menor que na compostagem aeróbia.
Por ser mais rápido e não exalar odores desagradáveis
ou líquidos agressivos, o processo aeróbio de compostagem
costuma ser preferido.
As "condições favoráveis., ou melhor, os principais
fatores que influem na atividade biológica para a decomposição
da matéria orgânica, são:
Teor de umidade - Se não houver água em quantidade
suficiente, a massa de lixo a compostar tenderá a secar, reduzindo
a velocidade de decomposição e aumentando o tempo de compostagem.
Se o teor de umidade é muito alto, odores desagradáveis
são produzidos, além de poder ocorrer uma percolação
de nutrientes do composto pela elevada concentração de
água. A compostagem nesta situação também
ocorrerá lentamente.
O teor de umidade ideal para uma compostagem aeróbia está
na faixa de 40 a 60%.

Aeração - No processo de compostagem
aeróbia, se o teor de oxigênio é baixo os microorganismos
aeróbios morrem e são substituídos pelos anaeróbios,
os quais não decompõem a matéria orgânica
com rapidez e ainda produzem maus odores.
Para se garantir, num processo aeróbio, a aeração
necessária a toda massa de resíduos, é normalmente
empregado o sistema de aeração forçada ou utilizados
mecanismos para o revolvimento periódico como, por exemplo, pás
mecânicas.
Relação carbono-nitrogênio (C/N) - Os microorganismos
responsáveis pela compostagem necessitam de carbono para seu
desenvolvimento e de nitrogênio para a síntese de proteínas.
No processo de compostagem há uma queda acentuada do teor de
carbono, enquanto ocorre uma menor diminuição do teor
de nitrogênio.
Em geral, a relação C/N ideal no início da compostagem
deverá estar entre 30:1 e 35:1.
Um composto curado, isto é, em condições de ser
empregado na agricultura deverá ter uma relação
C/N menor ou igual a 18:1.
Teor de fósforo e de potássio - A presença
destes dois elementos é necessária pare o desenvolvimento
dos microorganismos responsáveis pela compostagem.
A quantidade ideal de fósforo e de cerca de 20% do teor de nitrogênio,
enquanto o potássio deverá ocorrer em nível de
aproximadamente 8% do teor de nitrogênio.
Substâncias tóxicas - Manganês, cobre, zinco,
níquel, cromo e chumbo são metais pesados que, ocorrendo
sob determinada configuração química, podem inibir
o processo de compostagem, já que são nocivos aos microorganismos.
Além destes fatores, existem outros que também influenciam
o processo de compostagem, como a reação do meio (pH ácido
ou alcalino), a presença no substrato a ser composto de macro
e micronutrientes necessários ao metabolismo dos microorganismos
e ainda a intensidade dos ventos.
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O composto orgânico derivado do lixo
O composto orgânico é um recondicionador de solos exauridos
, não devendo ser confundido com os fertilizantes químicos,
embora possua em sua composição cerca de 6017o em peso
dos macro e micronutrientes necessários às plantas (nitrogênio,
fósforo, potássio, etc.).
Entre suas propriedades, pode-se destacar:
 melhoria
da estrutura do solo, tornando-o poroso e agregando suas partículas
que se transformam em grânulos;
aumento da capacidade
de absorção e retenção da água no
solo,
redução
da erosão do solo causada pela água das chuvas;
aumento da estabilidade
do pH do solo;
retenção
dos macronutrientes impedindo seu arrastamento pela água das
chuvas;
formação
de quelatos, ou seja, estruturas moleculares que aprisionam os micronutrientes
(ferro, zinco, cobre, etc.) possibilitando sua absorção
apenas pelas raízes das plantas;
aumento da aeração
do solo, necessária à respiração das raízes;
melhoria da drenagem da
água do solo;
maior retenção
do nitrogênio no solo.
O composto orgânico pode ser utilizado em qualquer tipo de cultura,
associado ou não a fertilizantes químicos, em quantidades
que variam em média de 5 a 50 t/hectare, em função
da qualidade do solo.
Os processos aeróbios de compostagem possibilitam uma característica
bastante importante ao composto orgânico resultante que é
a eliminação de organismos patogênicos que porventura
se encontrem no lixo.
Isto se dá em virtude da elevação de temperatura
da massa a compostar a até aproximadamente 70°C, durante
quase todo o processo de decomposição.
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Recuperação de materiais do lixo urbano
O processo de compostagem deverá estar sempre que possível
associado a um sistema de recuperação dos subprodutos
recicláveis presentes no lixo.
Existem diversos processos para seleção desses materiais
que, eventualmente, podem ser instalados de forma isolada ou associadas
entre si, como por exemplo:
Manual - consiste na "catação" executada
por trabalhadores ao longo de uma esteira transportadora, em uma mesa
de madeira ou concreto ou mesmo no chão.

Peneiramento - consiste na classificação
dos subprodutos em função do tamanho através de
peneiras rotativas ou vibratórias em plano inclinado.
Separação gravimétrica - efetua-se em função
da diferença de massa entre os subprodutos utilizando-se esteiras
oscilatórias inclinadas, separadores balísticos ou por
ricochete.
Separação magnética - consiste na separação
do material ferroso existente no lixo através de extrator eletromagnético
ou tambor (também chamado polia) magnético.
Existem, ainda, outros processos de separação, tais como
classificação ótica, via úmida e correntes
elétricas induzidas, sendo em sua maioria procedimentos sofisticados,
caros e de utilização um tanto ou quanto discutíveis.

Há que se considerar um outro fator importantíssimo:
"No Brasil a mão-de-obra não qualificada necessitando
de emprego é bastante numerosa". Quando se pensar em um
projeto de reciclagem, deve-se ter em mente uma utilização
intensiva desta mão-de-obra.
A seleção manual é o processo que apresenta maior
eficiência e até hoje não foi registrado nenhum
prejuízo à saúde dos "catadores ".
Os equipamentos de segurança necessários muitas vezes
se resumirão a apenas uniforme, botina e luvas do tipo "raspa
de couro".
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Decisão pela implantação de uma
usina de reciclagem
A implantação de uma instalação de reciclagem,
deve levar em conta os seguintes fatores:
existência de mercado
consumidor num raio de no máximo 200 km para absorção
do composto orgânico;
existência de mercado
consumidor para pelo menos três tipos de produtos recicláveis;
existência de um
serviço de coleta com razoável eficiência e regularidade;
disponibilidade de área
pelo Município suficiente para abrigar a instalação
industrial, o local onde se processará a compostagem e o aterro
que receberá os rejeitos do processo e o lixo bruto durante eventuais
paralisações da usina;
disponibilidade de recursos
para fazer frente aos investimentos iniciais, ou então de grupos
privados interessados em arcar com os investimentos e operação
da usina em regime de concessão;
disponibilidade, na Municipalidade,
de pessoal com nível técnico suficiente para selecionar
a tecnologia a ser adotada, fiscalizar a implantação da
unidade e finalmente operar, fazer a manutenção e controlar
a operação dos equipamentos eletromecânicos.

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Reciclagem como opção para tratamento
e disposição do lixo urbano
Se as condições anteriores forem atendidas, serão
necessários ainda os seguintes procedimentos:
1) Análise quantitativa e qualitativa do lixo produzido
Deverão ser levantados os seguintes dados:
quantidade do lixo coletado
e seu percentual em relação à estimativa do lixo
total gerado;
determinação
geográfica dos principais centros geradores de lixo;
análise gravimétrica
dos componentes do lixo;
análise do teor
de umidade do lixo;
análise físico-química
(caso o Município tenha condição de realizá-la).

2) Estudo de mercado para o composto orgânico
e produtos recuperáveis
O objetivo deste estudo é identificar previamente o mercado existente
e potencial para os diversos subprodutos a serem gerados pela usina
de reciclagem.
Para tanto deverão ser definidos os materiais a serem separados
do lixo, que normalmente são os seguintes:
 Papel
e papelão;
plástico duro (PVC,
polietileno de alta densidade, PET);
plástico filme
(polietileno de baixa densidade);
garrafas inteiras;
vidro claro e misto
metal ferroso (latas,
chaparia, etc.);
metal não-ferroso
(alumínio, cobre, chumbo, autimônio, etc.);
composto orgânico.
Deve-se
também estimar a produção de cada um desses materiais
para que o eventual comprador avalie com segurança seu interesse
pelo produto e possa fixar um preço de compra.
Para um conhecimento prévio do mercado de produtos do lixo, é
importante observar os aterros ou vazadouros em funcionamento.
Há catadores?
Que produtos são por eles separados?
Em que quantidade?
Quem os compra?
A que preço?
3) Seleção de área para instalação
da unidade de reciclagem
A área ideal para se instalar a unidade deverá atender
aos seguintes aspectos:
ser suficiente para abrigar
o setor de recuperação de materiais, a estação
de compostagem e o aterro;
possibilitar um rápido
e fácil acesso aos veículos coletores, ser provido de
água, energia e comunicação;
estar próxima dos
centros consumidores de produtos reciclados e de adubos orgânicos
ou, então, nas cercanias de estradas que possam escoá-los;
estar situada em local
que não incomode a população vizinha.
4) Seleção da tecnologia mais adequada
Um fator deve ser bem considerado quando da escolha de tecnologia: o
grau de mecanização e automatização.
Quanto maior for este grau:
menor será a utilização
de mão-de-obra na instalação; maior será
o investimento inicial; maior será o custo de manutenção
e operação; maior será a necessidade de emprego
de pessoal técnico especializado;
maior será o consumo
de energia.
Num País como o Brasil, normalmente serão recomendáveis
a utilização da separação manual dos materiais
recicláveis, com exceção, talvez, do metal ferroso,
e a compostagem em leiras a céu aberto, com reviramentos periódicos
por meio de pá mecânica ou outro equipamento auxiliar.
5) Análise dos custos de investimento e operação
Certos equipamentos encarecem muito a instalação e também
os custos operacionais.
Por isso os benefícios que trazem ao processamento do lixo devem
ser bem avaliados do ponto de vista econômico para orientar sua
eventual utilização.
6) Estudos de viabilidade econômica
Os dados mais importantes a serem analisados são:
 produção
estimada e preço dos materiais reciclados e do composto orgânico;
custo total de mão-de-obra
(administrativa, operacional e da manutenção);
custo total de energia
e combustível ;
custo com transportes
(se houver) e equipamentos auxiliares (pás mecânicas, microtratores,
etc.);
despesas com manutenção;
custo com depreciação
de equipamentos;
receitas indiretas, tais
como:
- redução de custo de transporte de lixo bruto, que passa
a ser vazado na usina em lugar do local para onde era anteriormente
destinado;
- redução de custos com operação dos aterros,
que passarão a receber menores quantidades de resíduos;
outros benefícios,
tais como: redução do tempo de coleta, recuperação
de matérias-primas muitas vezes importadas, aplicação
de mão-de-obra intensiva, absorção de tecnologia
e melhoria das condições sanitárias e ambientais.
É difícil se conseguir um equilíbrio financeiro
entre receitas e despesas em uma usina de reciclagem.
Os benefícios indiretos, as particularidades de cada instalação,
as peculiaridades de cada cidade ou região e ainda a análise
comparativa com outras alternativas é que determinarão
a conveniência desta opção para o tratamento e disposição
do lixo urbano.
Caracteristicas básicas de uma usina de reciclagem para cidades
de pequeno e médio portes
O melhor caminho para se explicar tudo isto é através
de um exemplo.
Assim, considere as seguintes situações:
cidade de pequeno ou médio
porte;
coleta domiciliar operando
regularmente;
composição
gravimétrica do lixo: acima de 20% em peso dos subprodutos recicláveis
(papelão, plástico, meteis ferrosos, metais não-ferrosos
e vidros);
teor de matéria
orgânica do lixo: acima de 209 to;
indústrias próximas
a cidade:
recuperação
de papelão;
recuperação
de plástico;
pequenas fundições;
- indústria de bebidas;
área agrícola
na periferia onde se cultivam hortigranjeiros ou culturas perenes.
Nesta situação poderia ser desenvolvido um projeto para
instalação de uma usina de reciclagem com as seguintes
características:
baixo custo de investimento;
utilização
intensiva de mão-de-obra com baixa qualificação;
uso de tecnologia simplificada
que permita baixos custos de manutenção e operação;
baixo consumo energético;
compostagem em leiras
a céu aberto.
Um projeto de concepção simples pode trazer um outro benefício
ao Município, que é a utilização de indústrias
locais para fabricação de boa parte dos equipamentos.
Os equipamentos auxiliares em uma usina podem ser:
pá carregadeira;
microtrator agrícola;
veículo de carga
leve com carroceria aberta;
carrocinhas ou contenedores
com rodízios para transporte de reciclados.
O projeto pode ser dividido de acordo com as fases de operação
que são basicamente quatro:
recepção
do lixo coletado e seleção de materiais de grande porte;
recuperação
de materiais e trituração (se houver) do lixo;
compostagem (ou cura);
peneiramento do composto
orgânico para comercialização, 60 ou 90 dias após
o início da cura.
A incineração do lixo como opção de destinação
final
A incineração de lixo urbano em grandes quantidades não
é recomendável para nosso País pois os investimentos
e os custos operacionais para os incineradores de maior porte são
muito elevados e exigem tecnologias sofisticadas. Entretanto pode ser
um procedimento a se empregar em hospitais e centros de saúde
e na eliminação de outros resíduos especiais, desde
que operados corretamente e que sejam construídos com tecnologia
adequada, além de licenciados pelo órgão de controle
ambiental competente.
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