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Assunto: A civilizao do lixo 03/12/2012
País: Brasil
Fonte: ICLEI Resduos
Data: 3/2013
Enviado por: Rodrigo Imbelloni
URL: http://www.iclei.org.br/residuos/?p=2032
Curiosidade (texto):
O Brasil vivencia nos ltimos 20 anos uma escalada na desova de descartes de uma forma que no tm precedentes. Entre 1991 e 2000 a populao brasileira cresceu 15,6%. Porm, o descarte de resduos aumentou 49%. Sabe-se que em 2009 a populao cresceu 1%, mas a produo de lixo cresceu 6%, constata o pesquisador. Admite-se que atualmente exista um descarte mundial de 30 bilhes de toneladas de resduos por ano. Seria meritrio advertir que os lixos j assumiram os contornos de uma calamidade civilizatria. Em termos mundiais, apenas a quantidade de refugos municipais coletados estimada em 1,2 bilhes de toneladas supera nos dias de hoje a produo global de ao, orada em 1 bilho de toneladas. Por sua vez, as cidades ejetam rejeitos 2 bilhes de toneladas que superam no mnimo em 20% a produo planetria de cereais, demonstrando que o mundo moderno gera mais refugo que carboidrato bsico. Contudo, mesmo esta notvel volumetria de resduos parece no satisfazer a obsesso em maximiz-los. O resultado disso uma autntica cascata de lixos. Os dados impressionantes so trazidos pelo consultor ambiental Maurcio Waldman, na entrevista que concedeu por e-mail IHU On-Line. Maurcio Waldman (foto) escritor, professor universitrio, pesquisador e consultor ambiental. Tem graduao em Sociologia, mestrado em Antropologia e doutorado em Geografia pela Universidade de So Paulo USP. ps-doutor pelo Departamento de Geografia do Instituto de Geocincias da Universidade Estadual de Campinas Unicamp. Atualmente desenvolve, com apoio da Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo Fapesp, seu segundo ps-doutorado em Relaes Internacionais, na FFLCH-USP. Foi chefe da coleta seletiva de lixo da capital paulista e coordenador do meio ambiente em So Bernardo do Campo. autor e/ou coautor de 15 livros, um dos quais Lixo: cenrios e desafios (So Paulo: Cortez Editora, 2010). Confira a entrevista. IHU On-Line De modo geral, como voc define o problema do lixo na sociedade moderna? Maurcio Waldman H um problema mundial relacionado ao lixo que inegvel. Neste prisma, um dado que chama a ateno fornecido pela literatura tcnica relacionada com o tema. Admite-se que atualmente exista um descarte mundial de 30 bilhes de toneladas de resduos por ano. Seria meritrio advertir que os lixos j assumiram os contornos de uma calamidade civilizatria. Em termos mundiais, apenas a quantidade de refugos municipais coletados estimada em 1,2 bilhes de toneladas supera nos dias de hoje a produo global de ao, orada em 1 bilho de toneladas. Por sua vez, as cidades ejetam rejeitos 2 bilhes de toneladas que superam no mnimo em 20% a produo planetria de cereais, demonstrando que o mundo moderno gera mais refugo que carboidrato bsico. Contudo, mesmo esta notvel volumetria de resduos parece no satisfazer a obsesso em maximiz-los. O resultado disso uma autntica cascata de lixos. Exemplificando, a populao norte-americana cresceu quase 2,5 vezes entre 1960 e o ano 2000. Porm, o j magnnimo descarte dos Estados Unidos praticamente triplicou desde 1960. Adicionalmente, outras peritagens mostram que no ano 2020 a Unio Europeia estar descartando 45% mais rebotalhos do que em 1995. Na Unio Europeia, um pormenor candente que o lixo domiciliar se expandiu inclusive em pases com evoluo populacional pouco expressiva. No caso espanhol, sete anos (1996-2003), foram suficientes para incrementar os refugos em 40%. IHU On-Line E no Brasil, como se situa este problema? Maurcio Waldman Malgrado uma nebulosa pea acusatria culpabilizar os pases do Norte pela gerao do lixo, o Brasil ao lado de outras naes do hemisfrio Sul ocupa uma incmoda posio na questo dos refugos. No caso, tanto pelas propores como pela mdia per capita. Na verdade, o lixo brasileiro supera a maioria das naes perifricas. No seria demasiado sinalizar, que conquanto corresponda a 3,06% da populao mundial e 3,5% do PIB global, o Brasil seria, por outro lado, origem de um montante estimado entre 5,5% do total mundial dos resduos slidos urbanos. Dito de outro modo: o pas um grande gerador mundial de lixo e deve assumir sua responsabilidade em contribuir para com a resoluo do problema. IHU On-Line Quais os principais e mais urgentes desafios a serem enfrentados? Maurcio Waldman A situao no admite vacilao e precisamos adotar de verdade os famosos quatro Rs: repensar, reduzir, reutilizar e reciclar. A ordem de aplicao exatamente essa, comeando com repensar e terminando com reciclar. Repensar a sistemtica de ejeo dos lixos fundamental, pois o problema, apesar de normalmente visto como uma problemtica econmica, , em larga escala, um tema tambm pavimentado por injunes sociais, polticas e culturais. No caso brasileiro, o pas vivencia nos ltimos 20 anos uma escalada na desova de descartes de uma forma que no tm precedentes. Entre 1991 e 2000 a populao brasileira cresceu 15,6%. Porm, o descarte de resduos aumentou 49%. Sabe-se que em 2009 a populao cresceu 1%, mas a produo de lixo cresceu 6%. Essas dessimetrias so tambm evidentes em dados como os que indicam a metrpole paulista como o terceiro polo gerador de lixo no globo. Perde apenas para Nova York e Tquio. Mas devemos reter que So Paulo no a terceira economia metropolitana do planeta. a 11a ou 12a. Ou seja, gera-se muito mais lixo do que seria admissvel a partir de um parmetro eminentemente econmico. IHU On-Line Qual a relao entre a questo do lixo e o consumo (e a consequente gerao de lixo) como indicativo de desenvolvimento? Maurcio Waldman A cultura organizacional da modernidade, cuja mola mestra so ritmos cada vez mais velozes impostos produo, obrigatoriamente tem na reposio constante dos bens uma meta estratgica da sua reproduo material. Dito de outro modo: trata-se de conduzir o consumo para a satisfao de necessidades que no se justificam em si mesmas, mas prioritariamente constituem pressuposto para a produo. No seu entrosamento mais literal, validar o dinamismo do mercado implica promover o descarte contnuo dos bens, ejetados pelo carrossel do consumo. Na perspicaz argumentao do filsofo Abraham Moles, vivemos numa civilizao consumidora que produz para consumir e cria para produzir, um ciclo onde a noo fundamental a de acelerao. Consequentemente, quanto mais rpida for a substituio das mercadorias, tanto mais encorpado ser o giro do capital. Quando antes e quanto mais os produtos se tornarem inteis, tanto maiores sero os lucros. Ainda que a contrapartida seja sobre-explorar os recursos naturais e, claro, maximizar a gerao de lixo. Como seria possvel arrematar, este conceito de economia caduco, ambientalmente irresponsvel e no tem condio nenhuma de manter continuidade. No hesitaria em afirmar que ele se tornou uma ameaa para o futuro da espcie humana. Urge redirecionar a economia para outras vertentes: qualidade de vida, preservao ambiental, utilizao racional dos recursos naturais, reviso do estilo de vida e da economia dos materiais. IHU On-Line O que deveria fazer parte de um plano de gesto de resduos municipal ideal? Maurcio Waldman Essa uma pergunta muito comum. O interessante que as pessoas imaginam que seja possvel criar um plano padro para a gesto dos resduos. Isto , um programa capaz de ser aplicado em qualquer contexto. Para citar um exemplo, chegaram a entrar em contato comigo solicitando um plano para uma cidade de 200 mil habitantes. Como que pode? Claro que o conhecimento do perfil demogrfico importa para a confeco de um plano de gesto de resduos. Todavia, esse dado por si s insuficiente. Por exemplo, as cidades de Marab (Par), Presidente Prudente (So Paulo) e So Leopoldo (Rio Grande do Sul) possuem contingente populacional semelhante, em torno de 200 mil habitantes. Mas isso no significa que uma estratgia de gesto bem sucedida em So Leopoldo possa ser repetida em Marab ou em Presidente Prudente. Ento, importante primeiramente obter dados do perfil do lixo de cada cidade, pas ou regio, assim como as dinmicas responsveis pela ejeo de descartes e, na sequncia, trabalhar com os aspectos sociais, econmicos e culturais envolvidos naquilo que se joga fora. No existe lixo: existem lixos. Expresso plural e no singular. Outro aspecto essencial mudar a viso tradicional que observa o lixo unicamente como um resultado. Na realidade, o lixo reporta a um processo, a um dinamismo cujo monitoramento no tem como ser bem sucedido atendo-se a ele enquanto um resultado final. Objetivamente, o importante pensar as causas, origem dos problemas e no o fim da linha. IHU On-Line Quais so os principais fatores que envolvem o gerenciamento do lixo no plano municipal? Maurcio Waldman Entendo que existem duas diretrizes matriciais: uma de ndole filosfica, que seria o caso, por exemplo, dos quatro Rs e outra, atinente aos aspectos logsticos de gesto do lixo. De qualquer modo, assevere-se que nosso temrio o lixo brasileiro, que dotado de uma srie de especificidades que devem estar colocadas no centro das atenes. Em nome dessas peculiaridades que o trabalho dos catadores deve, por exemplo, ser protegido, incentivado e valorizado pelas administraes municipais. Mas isso o oposto do que acontece na maioria dos casos. Estigmatizados socialmente, o trabalho dos catadores que corresponde a mais de 98% dos materiais encaminhados s recicladoras segue, a despeito do seu enorme valor social e ambiental, repudiado, quando no hostilizado abertamente, pelas administraes municipais. o que pondera nota oficial divulgada pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Reciclveis em 2010. O manifesto recorda que apenas 142 municpios em todo o pas (2,5% do total) mantm relao de parceria com associaes e cooperativas de catadores. Tal situao requer reviso imediata. IHU On-Line Como estes fatores ento devem ser levados em considerao? Maurcio Waldman Entendo que o problema do lixo pode, ao menos, ser mitigado com o concurso de procedimentos inteligentes e prticas ambientalmente corretas. Um exemplo bem concreto: dependendo da bibliografia, o volume de detritos orgnicos no lixo domiciliar brasileiro pende entre 52% a 69,6% do total. Qual seja: independentemente da fonte, o que ningum discute a magnitude da frao mida no lixo residencial. Normalmente, o sistema de limpeza urbana desova toda essa portentosa massa de sobras nos aterros. Mas existem outras solues. Deveramos priorizar a educao ambiental, trabalhar contra o desperdcio. Afinal, um documento da FAO (rgo da ONU relacionado com a alimentao e agricultura), datado de 2004, revela que o Brasil est entre os dez pases que mais jogam comida no lixo, com perda mdia de 35% da produo agrcola. Segundo levantamentos, cada famlia brasileira desperdia cerca de 20% dos alimentos que adquire no perodo de uma semana e a Companhia Nacional de Abastecimento Conab estima perdas em gros em torno de 10% da produo. Outras avaliaes indicam que praticamente 64% do que cultivado no pas acaba lanado na lata de lixo. Isso um contrassenso manifesto numa nao rotineiramente assediada por campanhas de combate fome. Portanto, devemos atacar a raiz do problema e parar de pensar que gesto dos resduos se resume a tirar saquinho da calada. A gesto dos resduos deve se situar antes do saquinho, e no depois dele. IHU On-Line Mas ainda assim existiro sobras Maurcio Waldman Sem dvida alguma. Inclusive aproveito o momento para questionar o conceito de Lixo Zero. Isso uma mitologia, uma verdadeira pea de fico. Toda atividade humana consome gua, solicita energia e gera lixo. Essa ponderao vale inclusive para a atividade recicladora. Mas se eliminar lixo uma afirmao insensata, por outro lado perfeitamente possvel pautar a reduo dos rejeitos. Retomando o caso do lixo culinrio, o meio ambiente e as cidades lucrariam muito mais na hiptese de se universalizar a compostagem domstica do que ficar investindo em caros sistemas de logstica de coleta de resduos, em aterros e incineradores. Com a adoo de minhocrios domsticos, a reduo do lixo orgnico pode alcanar a proporo de 95% do total. Isso significa que os gastos com coleta de lixo urbano podem retrair em at 50%. Consequentemente, haveria grande economia para o errio pblico, propiciando mais verba para sade e educao. Mesmo que apenas uma parcela da populao adote o sistema, ainda assim os ganhos seriam considerveis. IHU On-Line Que tipo de lixo o grande vilo? O domiciliar um dos maiores? Maurcio Waldman O lixo jamais constitui vilo. Ele transformado em um estorvo em razo do papel que os resduos assumiram na nossa civilizao. Como recorda o gegrafo francs Jean Gottman, vivemos um perodo que poderia ser definido como a Era do Lixo. Esta a primeira vez na histria que os resduos passaram a ocupar um nexo central nas preocupaes humanas. Trata-se de um fato indito cuja origem o ineditismo de como os rejeitos so trabalhados pela modernidade. Quanto questo do lixo domiciliar faz-se importante lembrar no que causaria espcie a um difuso senso comum que os rejeitos residenciais perfazem no mais que 2,5% do total do lixo mundial. Na realidade, o que descartado pelas residncias suplantado de longe, em ordem de importncia, pelos rejeitos da minerao, da indstria e da agropecuria. Note-se que esses trs segmentos so responsveis pela gerao de aproximadamente 91% do lixo planetrio, cabendo tanto para a pecuria quanto para a minerao algo mais que a tera parte do total, e para a agricultura cerca de 20%. Na sequncia, temos o lixo industrial, com 4%, o entulho, com 3%, e os resduos slidos urbanos, com 2,5%. Entretanto, caberia sublinhar que, embora o lixo domiciliar seja 2,5% nessa conta, processualmente o mais importante de todos. Isso porque tudo ou quase tudo que se produz no mundo acaba descartado no saquinho que colocamos na calada ou na lixeira do prdio. O lixo domiciliar o ltimo elo de uma longa cadeia de gerao de lixos. Segundo a ativista de sustentabilidade norte-americana, Annie Leonard, professora da Universidade Cornell, atrs de cada saquinho colocado na calada existem 60 outros sacos de lixo descartados no processo da produo. Em resumo, o lixo domiciliar o ltimo avatar na ciranda da gerao de lixos. IHU On-Line Quanto lixo gerado nos municpios brasileiros e o que feito com ele? Maurcio Waldman Os dados compilados mais recentes so de 2008. Constam na Pesquisa Nacional de Saneamento Bsico PNSB, um trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica IBGE. Segundo este levantamento, em 2008 eram coletados 183,5 mil toneladas/dia de resduos slidos urbanos. Importa esclarecer que para o PNSB a categoria lixo urbano subentende os refugos procedentes do mbito domiciliar e do comrcio e atividades de servios. De qualquer modo para alm dos dados impressionantes dos nmeros do IBGE , a situao da gesto do lixo preocupa no aspecto qualitativo. Por exemplo, na capital paulista cerca de 35% do lixo obtido pela coleta seletiva da administrao municipal que sendo materiais j segregados deveriam ser 100% reaproveitados encaminhado para aterros devido a falhas operacionais e logsticas do sistema. Mesmo Curitiba cidade icnica em termos de reciclagem 60% dos materiais desovados nos aterros seriam itens passveis de reciclabilidade. Em termos tcnicos, no h nenhuma cidade de porte no Brasil com reciclagem em termos de excelncia. Ademais, no pas 60,5% dos municpios descartam lixo de modo inadequado. Para complicar, mais de 6,4 milhes de toneladas sequer so coletadas, sendo despejadas irregularmente ao longo das vias urbanas, em crregos, praias, etc. Na rea rural, a coleta alcana apenas 33% dos domiclios. Ainda com base no PNSB, o documento revela que em 80% do territrio nacional existem lixes e aterros controlados (na verdade, lixes melhorados), sendo que isso acontece justamente nas reas de maior interesse ambiental: Amaznia, Pantanal, reas de mangue, cerrado, etc. IHU On-Line Qual sua opinio sobre os aterros sanitrios como destino do lixo? a melhor alternativa? Maurcio Waldman bvio que, sendo impossvel existir uma sociedade sem resduos, h um momento no qual o lixo deve ser encaminhando para algum tipo de disposio final. importante frisar que o aterro sanitrio ao menos atenua alguns dos agravantes relacionados com a disposio irregular dos detritos. Reconhecidamente, o lixo domiciliar origina efluentes lquidos (chorume) e gasosos (metano), que constituem complicadores ambientais de monta. O chorume 200 vezes mais impactante que o esgoto quanto demanda bioqumica de oxignio (DBO). Em suma, atua como poderoso elemento destrutivo das guas doces. Quanto ao metano, trata-se de item crucial da agenda das mudanas climticas. Ainda que as emisses de metano sejam inferiores s do dixido de carbono (tido como carro-chefe do efeito estufa), seu efeito consideravelmente maior: cerca de 20 vezes mais. A discusso relacionada com o metano conquista relevncia especial pelo fato deste gs ser dotado de preocupante implicao quanto ao aquecimento global. Acredita-se que no Brasil o lixo domiciliar, devido ao elevado teor de matria orgnica, represente 12% das emisses brasileiras do gs, sendo que a disposio final responde por 84% desse valor. Ora, ao menos os aterros sanitrios drenam o metano e coletam o chorume. Outro detalhe importante que as reas eleitas para acolherem aterros sanitrios requisitam estudos geotcnicos e medidas de implantao precisas e rigorosas. Em 2008, existiam 1.723 destes equipamentos em operao no Brasil, recebendo 110 mil toneladas/dia de lixo: 58,3% do total nacional. Contudo, advirta-se que, apesar do rigor tcnico sugerido pelos aterros sanitrios, o modelo incorpora diversos questionamentos, a comear por obrigar a seleo de vastas reas de terreno cada vez mais escassas em todo o mundo exclusivamente para confinar rejeitos. Outro dado que a pontuao do aterro depende de pessoal tcnico qualificado, o que no necessariamente est disposio. Por fim, os aterros reclamam verbas pesadas para enterrar materiais cuja produo requisitou gua, energia, recursos naturais e trabalho humano, um contrassenso a toda prova. IHU On-Line E o que dizer dos chamados vazadouros a cu aberto, ou simplesmente lixes? Quais os danos que eles provocam ao meio ambiente e sade humana? Maurcio Waldman Sem meias palavras, o lixo um verdadeiro caso de polcia. As reas de lixo no pas exibem o que de pior existe na no gesto dos rebotalhos. Entre outros problemas temos emisses de chorume e de gs metano sem controle, insetos e toda uma fauna transmissora de doenas, ameaas ao meio ambiente e populao em geral. Essa a sintomatologia de um lixo. H aproximadamente 12 mil lixes em atividade ou desativados no territrio nacional. Nesse sentido, importaria assinalar que a to propalada Poltica Nacional de Resduos Slidos PNRS de 2010, embora tenha por meta a extirpao do lixo como equipamento para confinamento dos resduos, foi antecedida neste mister pela Lei de Crimes Ambientais de 1998. Para esta legislao, a deposio de resduos a cu aberto j era considerada ilegal. Mas pelo jeito, foi uma lei que no pegou. Para complicar, no obstante a apologia que muitos tcnicos do Ministrio do Meio Ambiente teceram com abnegao inconsequente ao longo de 2010 quanto ao PNRS, existe o fato concreto de que at este momento, apenas 10% dos municpios elaboraram planos de gesto de resduos. um fato que preocupa, e muito, todos os especialistas da lixologia. Em especial, os que querem ver a erradicao final dos lixes no Brasil. IHU On-Line Qual a importncia da reciclagem do lixo como alternativa para o problema? Maurcio Waldman Essa pergunta instigante, tanto pelo fato da reciclagem ser uma estratgia matricial na minimizao dos impactos provocados pela verdadeira avalanche de lixo que est dominando o planeta quanto pelas prprias limitaes da atividade recicladora no que pode surpreender muitos leitores desta entrevista. Importa esclarecer os seguintes fatos: primeiro, que nas condies como a sociedade e a economia globais esto hoje estruturadas a reciclagem no tem como deter a disseminao do lixo e tampouco impor recuos na expanso dos rebotalhos; segundo, a reciclagem tem se articulado com a dinmica maior do sistema de produo de mercadorias responsvel pela depleo dos recursos naturais e gerador de rejeitos. Ou seja, foi cooptada pela lgica da produo incessante; terceiro, a reciclagem no contesta a espiral de consumo e apenas a apresenta sob nova roupagem, agora adornada com afetaes ambientais e beatificada pelo evangelho do desenvolvimento sustentvel. Em sntese, a reciclagem, conforme j sugeri, somente o ltimo dos quatro Rs. antecedida em ordem de importncia por repensar, reduzir e reutilizar. IHU On-Line vivel apostar nela, considerando a sociedade capitalista em que vivemos, onde tudo deve gerar lucro, at o lixo? Maurcio Waldman Vivel ela e deve ser incentivada. Outra coisa transform-la no cone da defesa do meio ambiente, o que simplesmente no correto. preciso rubricar que a ciranda do sistema produtivo, articulada com o que denominei no meu livro Lixo: cenrios e desafios, como cornucpia dos lixos, tem objetivamente nivelado a zero os ganhos advindos com a recuperao dos materiais. Exemplificando, embora no caso do papel a atividade recicladora tenha imposto certa desacelerao no crescimento da demanda por polpa de madeira, ela serviu bem mais como complemento do que substituto para a fibra virgem. Sabidamente, nunca se produziu tanta celulose na histria humana quanto nos dias atuais. O consumo de materiais celulsicos cresce num nvel to rpido que suplanta a possvel poupana de recursos promovida pela recuperao dos papeis. Outros itens de resduos repetem o mesmo tipo de desempenho no contexto maior da engenharia econmica. Exemplificando, no Japo, entre 1966 e o ano 2000 a reciclagem do plstico PET cresceu 40%. Todavia, neste mesmo lapso de tempo o consumo duplicou, cancelando o quinho de benefcios providos pela recuperao desta sucata. O resgate de metal das lixeiras tambm no consegue acompanhar o ritmo alucinante de consumo de cargas sequestradas do reino mineral. A produo de ao secundrio (metal refundido proveniente da reciclagem) atinge 35% da produo mundial total. Mas os nmeros globais no param de crescer. Assim, se em 1950 as siderrgicas produziam 189 milhes de toneladas de ao, em 2008 a produo alcanou 1,3 bilhes de toneladas, quase sete vezes mais. Em tempo, precisamos acima de tudo repensar o conjunto da sociedade contempornea. IHU On-Line Gostaria de acrescentar mais algum comentrio? Maurcio Waldman Sim. Gostaria de destacar que a discusso do lixo pe em xeque a civilizao do lixo, impondo uma revoluo completa da forma como so produzidas as coisas, como so consumidas e como so descartadas. Cada um de ns deve fazer sua parte sabendo que toda contribuio necessria e indispensvel. uma tarefa difcil, mas no impossvel. Atentemos para as palavras do ambientalista Paul Hawken: No se deixem dissuadir por pessoas que no sabem o que no possvel. Faam o que precisa ser feito, e verifiquem se era impossvel exclusivamente depois que tiverem terminado. isso: sigamos em frente! Fonte: Mercado tico via: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/a-civilizacao-do-lixo/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje